Enel e Sabesp: O Apagão Duplo e a Mentira da Eficiência Privada

Se havia alguma dúvida de que a privatização de serviços essenciais no Brasil precisa ser repensada urgentemente, os eventos recentes em São Paulo trataram de dissipá-la.

Um novo temporal expôs, de forma crua e impiedosa, a fragilidade de um sistema gerido pela lógica do lucro máximo e investimento mínimo. Não bastasse o apagão elétrico da Enel, que deixou milhares no escuro por dias, tivemos o efeito cascata: sem energia, as bombas da recém-privatizada Sabesp pararam, deixando bairros inteiros também sem água.

É o “combo da privatização”: a conta chega mais cara, o serviço piora, e você fica no escuro e com sede.

A Lógica do “Custo Zero”

Especialistas apontam que o modelo faliu. Empresas monopolistas como a Enel cortaram drasticamente suas equipes de manutenção para aumentar dividendos para os acionistas.

Quando a crise climática bate à porta (e ela baterá cada vez mais forte), não há técnicos suficientes para religar os fios ou podar as árvores preventivamente.

É a repetição exata do cenário que denunciamos no artigo sobre a Privatização da Água. A promessa de “eficiência privada” e “modernidade” se traduziu na prática em demissão de pessoal experiente e precarização do atendimento. O lucro foi privatizado e enviado para a matriz na Europa; o prejuízo social ficou com a dona de casa da periferia.

Rua residencial em São Paulo totalmente escura à noite durante um apagão, apenas com faróis de carros iluminando. Enel deixando moradores longos períodos sem energia

A Sabesp no Mesmo Caminho?

O caso da Sabesp é ainda mais preocupante, pois é vital. Privatizada recentemente sob a promessa de universalização, a empresa já demonstra falta de plano de contingência.

A dependência total da rede da Enel, sem geradores suficientes para estações de bombeamento críticas, mostra uma falta de planejamento estratégico que beira a negligência criminal. A água, assim como a energia, virou mercadoria. E na lógica de mercado, mercadoria em falta fica mais cara ou é racionada para quem paga menos.

Onde Estão as Agências Reguladoras?

A ANEEL (energia) e a ARSESP (saneamento) parecem assistir a tudo passivamente, como espectadores de luxo.

Multas milionárias são aplicadas nas manchetes de jornal, mas raramente são pagas, ou são valores irrisórios perto do faturamento bilionário das concessionárias.

O Brasil 247 e o ICL Notícias têm denunciado constantemente a “captura regulatória”: as agências que deveriam fiscalizar e proteger o cidadão parecem ter medo de desagradar o mercado financeiro.

Protesto de moradores indignados queimando pneus em uma rua bloqueada, com faixas contra a Enel.

Conclusão: Reestatizar ou Regular?

O Brasil está na contramão do mundo desenvolvido, que começa a reestatizar serviços de água e energia após fracassos semelhantes. Não se trata de ideologia, mas de sobrevivência e segurança nacional. Serviços de monopólio natural, essenciais à vida, não podem obedecer apenas à planilha de Excel de um fundo de investimento. São Paulo aprendeu da pior forma que a “mão invisível do mercado” não sabe segurar uma motosserra para tirar árvore da fiação no meio da chuva.

Participe da Análise

O debate está aberto: A privatização melhorou o serviço na sua cidade ou só aumentou a conta? Você é a favor de rever os contratos de concessão da Enel e Sabesp?

Deixe seu comentário e participe ativamente da discussão.

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