Correios vs. USPS: A “Canibalização” do Lucro e o Mito da Privatização
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Em 2025, o noticiário econômico estampou o rombo: os Correios projetam um déficit de R$ 5,6 bilhões, reacendendo a fúria dos defensores da privatização imediata. Nos Estados Unidos, o cenário é gêmeo: a USPS (o Correio Americano) reportou um prejuízo líquido estimado em US$ 9 bilhões.
Diante desses números, a narrativa fácil de “estatal é ineficiente e cabide de emprego” ganha força. Mas essa análise é preguiçosa e esconde a verdadeira causa da sangria: o fim do subsídio cruzado.
O que quebrou as pernas dos Correios (e da USPS) não foi apenas má gestão ou o fundo de pensão, mas o fato de que o mercado privado capturou o “filé mignon” da logística, deixando o “osso” da obrigação social exclusivamente no colo do Estado.
A Perda do “Filé Mignon”
Durante décadas, a lógica postal funcionou assim: o lucro exorbitante de entregar uma encomenda na Avenida Paulista financiava o prejuízo de levar uma carta de vacinação a uma comunidade ribeirinha no Amazonas. Era um sistema solidário de compensação.
Nos últimos anos, com a abertura de mercado, gigantes como Mercado Livre, Amazon e Magalu montaram logísticas próprias ultraeficientes. Elas dominaram as rotas lucrativas (Sul e Sudeste), onde a densidade demográfica garante lucro fácil. Resultado? Os Correios perderam a receita que pagava a conta social. A estatal ficou com a obrigação constitucional de atender 5.570 municípios, enquanto as privadas só atendem onde dá lucro. Criticar o déficit dos Correios sem mencionar esse roubo de mercado é desonestidade intelectual.

O Espelho Americano: Por Que os EUA Mantêm o Prejuízo?
Nos EUA, a FedEx e a UPS operam na mesma lógica: ficam com o lucro corporativo e deixam a entrega rural para a USPS. Mesmo com prejuízos bilionários anuais, o Congresso americano (seja Republicano ou Democrata) se recusa a privatizar a USPS. Por quê? Porque eles sabem que nenhuma empresa privada aceitaria entregar correspondência no Alasca ou no interior de Nebraska pelo preço de um selo comum. O déficit da USPS não é visto como “rombo”, mas como o custo da integração nacional.
É a mesma lógica que discutimos sobre a Privatização da Água: o setor privado não tem interesse em garantir direitos universais, apenas em garantir dividendos trimestrais.
O Papel Social Insubstituível
Os Correios não são apenas uma transportadora; são o braço do Estado onde o Estado não chega. Eles entregam provas do ENEM, urnas eletrônicas, medicamentos do SUS e livros didáticos em locais onde o caminhão da transportadora privada jamais pisaria porque “não compensa o diesel”.
Dizer que a privatização resolveria o problema é mentira. Se vendermos os Correios, o novo dono fará o óbvio: fechará as agências deficitárias do interior. E quem mora lá pagará fretes abusivos ou ficará isolado.
Privatizar o Lucro, Socializar o Prejuízo
O que vivemos hoje é a “privatização branca”. As empresas privadas usam a infraestrutura pública (estradas, segurança) para lucrar nas capitais, mas não pagam nenhuma taxa para ajudar a manter o serviço postal nas áreas remotas. Se queremos manter os Correios públicos e eficientes, o debate não é sobre vender, mas sobre regulação. As empresas que lucram bilhões no e-commerce deveriam contribuir para um fundo de universalização postal, ajudando a manter a integração do país que elas exploram.

Conclusão: Quem Vai Pagar a Conta?
O déficit existe porque a obrigação social custa caro. Temos duas opções: ou o Tesouro cobre esse custo via impostos (como fazem os EUA), ou aceitamos que metade do Brasil ficará sem serviço postal. Achar que o “mercado” vai entregar carta na Amazônia por caridade é acreditar em conto de fadas.
Participe da Análise
O debate está aberto: Você mora em uma cidade onde só os Correios chegam?
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